terça-feira, 18 de julho de 2006

semana dos infernos

Depois de ler o animado fim de semana do Gattaca, tenho de partilhar os meus últimos dias, porque começo a achar que a minha existência é dolorosa. preciso exorcizar.

A semana passada não foi a melhor. Não sei se sabem, mas o meu núcleo familiar, além dos pais e das cadelas (e a coelha), são o meu avô e o casal de tios avós sem filhos, tudo já passado da casa dos 80 anos.
A minha tia-avó, a quem foi diagnosticada a doença de alzheimer, atingiu o seu pico na semana passada.
Não sabe quem é; não sabe quem somos, não sabe onde está.
Sai porta fora a dizer que não está em casa e que quer ir para casa.
Bate-nos a nós e ao marido e acha que somos todos mentirosos e gatunos.

Os meus pais e os meus tios moram no mesmo prédio. E é na casa dos meus pais que eu tenho ficado.
Não houve um dia na semana em que não me tivesse chamado logo de manhã para tirar um suposto senhor lá de casa que diz que não sabia quem era (é o marido, o meu tio).

Dia após dia, sempre a mesma coisa, a cabeça deixou de se lembrar das coisas. E nós, a tentar fazer o melhor para ajudar.
É uma doença difícil e ingrata para quem está a prestar os cuidados.
Nós, eu e os meus pais, estamos organizados em turnos para os ajudar.
Já procurámos ajuda. Veio mais uma empregada. Mais um restaurante que fornece o almoço.

Por num lar? Nem pensar. Não são só as aparências, mas acima de tudo é o valor que se tem de pagar ao fim do mês.
Os cuidados vão desde a alimentação até à escolha da roupa para os dois vestirem, porque caso contrário não se veste nem um nem outro.
São todos os mesmos cuidados que se tem de ter com uma criança, agravados pelo facto de um idoso ter vontade própria e achar que manda no mundo.

Na quinta-feira, eu cheguei ao meu ponto final. Deu-me um ataque de histeria. Não aguentei mais. Tive de começar a gritar... seguiu-se uma choradeira absurda. Até que a minha mãe me veio substituir. Tive de baixar a guarda, não dava mais. Eu não aguentava mais ouvir a minha tia a gritar por mim.
Liguei para uma linha de apoio a doenças deste tipo, onde ouvi uma senhora durante uma hora a dizer-me que é preciso ter "paciência".

Na sexta-feira e no sábado, fiquei a trabalhar até mais tarde. Assim era uma maneira de descansar.
Embora não goste deste Sítio do Picapau Cinzento, é melhor estar aqui, com ar condicionado, do que em casa.
O domingo voltou a ser o meu turno em casa. Muito calor. Queria ir para a praia. Queria ir ao ginásio. Mas não tinha forças.
Dei o almoço, dei o jantar.
À noite quando me vieram "render", peguei na trouxa e fui para minha (própria) casa, desconsolada.
Mas enfim sós!

Segunda-feira, a rotina voltou ao mesmo. Fui trabalhar, para mais uma semana de 6 dias. Mas qualquer stress no trabalho é insignificante. Não chegam sequer a ser problemas, porque eu encontro a solução em três tempos.
O pior está em casa. E não dá para virar os olhos e dizer "hoje não me apetece" e não pudemos pura e simplesmente fazer a mala e dizer "olha, fui, porque esta não é a minha história".
Ando desconcentrada. Esqueço-me de tudo. Estou cansada. Faço milhares de disparates. A conduzir, nem se fala. Vou a um concerto e fico em estado catatónico.

Todos acham que os seus problemas são os piores. Como não posso debandar e mudar-me para o outro lado do mundo... tenho de arranjar soluções dia a dia ou às vezes hora a hora.
E ir andando.

Beijos.
Ziggy.

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