segunda-feira, 4 de abril de 2005

Assumir

Sábado tomei a decisão. Encho o peito de ar e ligo à minha madrasta. Digo-lhe que precisava de falar com ela para pedir uns conselhos. Após alguns minutos de conversa lá adianto que queria a ajuda dela para dizer ao meu pai que sou gay. Fica combinado um almoço na segunda-feira, não sem antes ouvir a brilhante expressão: “mas não vais colocar isso nos jornais pois não?”. Estava feito. Agora já não podia voltar atrás.

Domingo o tradicional almoço em casa de minha mãe. Estamos os dois na sala...

- É verdade, vou contar ao meu pai acerca de mim.

- O que é que vais contar ao teu pai?

- Mãe!!!! O que achas que vou dizer ao meu pai sobre mim que ele não saiba??

- Sei lá!

- Mãe, vou dizer que gosto de meninos em vez de gostar de meninas.

- Ah, mas ele já sabe!!

- DESCULPA!!!!

Pois, segundo vim a descobrir agora, o meu pai já sabe da minha orientação há 10 anos, ou seja, quando tive a “dita” conversa com a minha mãe. Parece que um dos meus tios foi almoçar com o meu pai para lhe contar a boa nova. E acham que alguém me perguntou ou disse alguma coisa? ZERO!!

Quando contei à minha mãe, ela fez o favor de espalhar a “boa nova” por toda a família, amigos dela, meus amigos, lojas do centro comercial ao lado da nossa casa, senhoras do supermercado e afins. Foi “simpático” da parte dela e por isso não foi de estranhar o facto de as algumas pessoas se terem afastado ou olharem para mim de uma nova forma. Nunca lhe consegui perdoar essa atitude. Essa e o facto de ter ouvido que para ela era mais normal um filho ser drogado do que homossexual. Opiniões...

Agora, com esta história do meu pai, fiquei novamente furioso. Mesmo. Durante 10 anos foi algo que me incomodou. Foi algo que lhe queria contar e não tive coragem. Eu e o meu pai nunca fomos muito íntimos e este assunto era uma pedra no meu sapato que muito vez impediu que a nossa relação evoluísse. Durante 10 anos vive uma ilusão que não foi criada por mim, mas que me obrigaram a viver de forma involuntária.

Não gosto de mentir e por isso prefiro omitir. Logo que havia a falar com o meu pai? Que lhe podia contar da minha vida? Que lhe podia contar das minhas férias? A quem podia ir pedir ajuda e desabafar?

Agora entendo o porquê de ele me ter ajudado em tão poucas ocasiões. Agora entendo o facto de ele nunca querer ter ido a minha casa, embora tenha insistido por diversas vezes. Agora acho que finalmente entendo algumas coisas...

Regressando a sábado. Saio rapidamente de casa da minha mãe e vou para a minha. Fico parado uns minutos sentado no sofá e faço a tal chamada. Coração aos saltos. E o meu pai atende. Estava bem disposto, mas em segundos o tom de voz muda radicalmente.

- Esta semana é complicado ir almoçar contigo. Vou estar ocupado.

- Pois. Acredito. Mas fiquei muito triste por ter descoberto que outra pessoa te contou. E sabes do que estou a falar?

- Desconfio que sim. Falamos depois

Desligou! No próximo domingo ele faz anos. Vai ser o primeiro encontro depois deste episódio. Porque se não for eu a ligar para marcar o tal almoço, ele também não vai.


Ass: Gattaca

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